sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sobre o texto “Crise ambiental, educação e cidadania: os desafios da sustentabilidade emancipatória” de Gustavo Lima



Orientado pela premissa de tentar descobrir qual a contribuição do processo educativo para a resolução dos problemas socioambientais, Lima mapeia as principais tendências político-ideológicas da educação ambiental, assim como discute a sua politização. Algumas passagens históricas significativas são levantadas na obra para contextualizar a educação na crise socioambiental, como a Revolução Industrial, o episódio nuclear e as duas grandes guerras, episódios que marcaram a trajetória da cultura ocidental em sua relação com o meio ambiente natural e construído. O sistema político-econômico-social vigente provoca as desigualdades sociais ao mesmo tempo em que tem esgotado as reservas naturais, configurando a crise civilizatória vivenciada. O autor aponta que existem incompatibilidades essenciais entre as necessidades do mercado e a construção de uma sociedade sustentável, como a lucratividade imediata e o longo prazo dos investimentos necessários aos planos e práticas de sustentabilidade. Assim, o autor defende que a educação se configura como um instrumento capaz de contribuir com respostas a essa problemática junto aos demais meios políticos, econômicos, legais, éticos, científicos e técnicos. Embora a escola funcione como um sistema de reprodução da ordem dominante é possível exercer práticas críticas e assim pode se tornar um espaço possível e importante de luta, ainda que limitado. Lima retoma os fatos que iniciaram as discussões sobre a educação ambiental e como se deu a expansão do seu debate. Para o autor, a Educação Ambiental se relaciona com outros posicionamentos político-ideológicos e assim ele sugere um intervalo polarizado pelas duas concepções que estruturam o debate da sustentabilidade e da educação ambiental: conservadora e emancipatória. Caracterizando essas duas visões, o autor defende que a tendência emancipatória apresenta uma compreensão complexa e multidimensional da questão ambiental, ao contrário da conservadora que apresenta uma concepção reducionista. Além disso, o autor traz a reflexão sobre a politização da questão e da educação ambiental, argumentando que estamos diante de uma situação degenerativa de distorção ética, de perda da capacidade de se indignar mesmo ante ao absurdo. O autor nos diz que o processo de politização da educação supõe, portanto, a consideração do educando como portador de direitos e deveres, a abordagem do meio ambiente como bem público e no tratamento do acesso a um ambiente saudável como um direito de cidadania. Uma avaliação sobre as idéias do texto traz diversas reflexões importantes, como o papel da educação e nosso na luta contra a ordem dominante visando um mundo melhor, sustentável. Apesar de diversos aspectos serem interessantes e relevantes para análise serão apontados apenas dois: o entendimento da democracia como pré-requisito fundamental para a construção de uma sustentabilidade plural e sobre ao papel da escola como instrumento de superação da ordem dominante. O entendimento da democracia realmente se faz necessário para a compreensão dos problemas que a permeiam, visando o encontro de uma maior participação política cidadã em busca da sustentabilidade. Segundo Silva (2008), a sociedade atual, com seus valores e sua cultura, constitui-se em um ambiente profundamente desfavorável à participação política. A autora defende que a exclusão educacional e a transformação da política em um evento de marketing bianual são elementos que impulsionam a apatia política do conjunto da população. Assim, uma importante reflexão, é que apesar de vivermos em um Estado democrático, devemos lutar para a consolidação da prática política do povo que requer a recuperação da política como dever-cidadão e a elaboração de instrumentos participativos que permitam ao povo o protagonismo político (Silva, op. cit.). Outro elemento interessante do texto é referente ao papel da escola como instrumento de superação da ordem dominante. O autor assume o papel limitado da instituição, entretanto, é importante não se esquecer de sempre chamarmos à luta em defesa da escola e da educação de qualidade. Assim, é necessário sim exercer práticas críticas na escola, mas também é imprescindível acreditar que ela tem um papel fundamental e central na transformação da sociedade. Não podemos exagerar no reconhecimento do papel da escola como reprodutora da ideologia dominante. Freire (1991) nos diz que um dos equívocos dos que se exageram foi não ter percebido, envolvidos que ficaram pela explicação mecanicista da história, que a subjetividade joga um papel importante na luta histórica e que seres condicionados não são, porém, determinados. A presente obra apresenta uma escrita de qualidade, coerente e com validade social, tornando sua leitura agradável e com conteúdo. O autor levantou diversos aspectos sobre a crise socioambiental vivenciada, baseando-se em diversas referências renomadas, tornando sua obra substancial e de largo alcance. A obra pode ser indicada para um quadro amplo de pessoas, como estudantes, pesquisadores, professores e ativistas, por representar um interessante material para a compreensão de como se configura a situação atual e quais as perspectivas e iniciativas necessárias à sua transformação.

LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. “Crise ambiental, educação e cidadania: os desafios da sustentabilidade emancipatória”. In: LAYRARGUES, P. P.; CASTRO, R. S.; LOUREIRO, C. F. B. (orgs.) Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania, São Paulo:  Cortez, 2002.

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* por Priscila Figueiredo

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