quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Extensão Universitária: para quê?

A Universidade pública ou particular é uma instituição repleta de contradições, sejam relacionadas com sua forma de gestão quanto pela sua política pedagógica. A Universidade não é popular, apesar de o povo ser o que paga por tudo ou pela maior parte. Não é participativa apesar de se ensinar dentro dela a importância da democracia e participação popular. Em suas entranhas se vêem preconceitos, práticas educativas tradicionais que não promovem o aprendizado, etc. Assim, as incoerências estão principalmente relacionadas com a abismo existente entre o que se leciona e se “aprende” com as práticas efetivas de todas/os as/os acadêmicas/os.
A Universidade deve pautar-se em uma forte articulação entre Ensino, Pesquisa e Extensão, mas isso não é o que observamos nas Universidades brasileiras. O ensino é na maioria das vezes, fragmentado em seus próprios conteúdos. Já a pesquisa se pauta muito no ensino, pois precisa dele para sua existência, entretanto, a recíproca não é verdadeira. Muitos podem entrar e sair de uma instituição de ensino superior sem nunca nem ter realizado sequer um projeto de pesquisa, além do TCC (que muitas vezes é comprado). A extensão se utiliza da pesquisa para seu auxílio, mas a reciprocidade novamente não é verdadeira. Existem diversas pesquisas sendo realizadas no país inteiro e que não se articulam com nenhum aspecto extensionista. Por fim, não existe nenhum vínculo da extensão com o ensino. É evidente que existem muitas exceções, felizmente, mas a realidade da maioria dos cursos superiores não escapam desse quadro exposto. E não é preciso ler nenhuma pesquisa sobre isso para se comprovar, é necessário apenas ver que a Universidade interfere pouco diretamente na realidade social das cidades onde estão inseridas. Interferem indiretamente pois profissionalizam, mas diretamente pouco se vê. Não são raros os casos de pessoas que moram em uma cidade universitária e nunca entraram dentro da instituição, muito menos sabem o que se passa lá dentro.  Por isso a falta de articulação entre ensino, pesquisa e extensão se configura como um dos maiores problemas das universidades e também um de seus maiores desafios.
O ensino é muito valorizado, a pesquisa é muito financiada, mas poucos cursos são os que se preocupam com a extensão. O descaso com a extensão é muito preocupante, mas tem um motivo: quem que vive em uma sociedade capitalista e extremamente individualista e competitiva como a nossa quer “perder” seu tempo entrando em contato com o povo, propondo e lutando por um novo mundo. Atualmente, o que vale é o dinheiro e isso não dá dinheiro; traz melhoria para a população, como saúde, uma consciência mais ecológica e igualitária. Hoje, o interessante é uma coisa: produção. Produção de um currículo cada vez melhor, com muitos trabalhos publicados e apresentados em congressos caríssimos onde só vão aquelas mesmas pessoas de sempre; e produção de conhecimento que renda dinheiro ou status científico, como uma nova vacina, por exemplo, que é muito importante mas de nada vale se não houver um trabalho com a população para promover a conscientização.     
Assim, o papel da extensão universitária tem sido amplamente discutido nos últimos anos, debate este que perpassa à própria concepção de Universidade e seu papel social. Seguindo-se a lógica dialética observa-se que assim como a sociedade, a educação mudou ao passar dos anos e, desde o surgimento das Universidades o entendimento de seu propósito, tal como suas diretrizes e ações, têm sofrido transformações. É inconcebível pensar em uma instituição que produz conhecimento e que este muitas vezes não tem uma ação direta sobre a vida das pessoas. Veja bem, os TCC são um grande exemplo, neles muitas vezes se identificam problemas se pesquisa sobre eles, se propõem mudanças (ou não) e se escreve sobre isso. Mas fica a pergunta: Quantas pessoas voltam as suas fontes de pesquisa para efetivamente mudar o que foi analisado? Com certeza muito poucos, então para que serve esta pesquisa? Para aumentar o acervo e servir de referências para próximas pesquisas irrelevantes?
A educação é um dos mais importantes instrumentos de transformação da sociedade, mas apenas aquela que é de qualidade, que não reproduz práticas e teorias. Uma educação que inspira as pessoas a repensarem o seu papel na sociedade, e sejam como diria Gandhi a mudança que queremos ver no mundo.

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