Questionar sempre é uma prática de suma importância para nossa libertação e compreensão do universo. Entretanto, grande parte das pessoas não reflete sobre muitos aspectos da nossa cultura que nos são impostos, muitas vezes, desde o nosso nascimento. A crença em Deus e nossa conseqüente alocação em uma religião para cultuá-lo são práticas humanas milenares, mas poucas são as pessoas que refletem sobre a fé de maneira crítica.
Não acredito mais em Deus, mas diferentemente do que muitos podem acreditar isso foi uma constatação que aconteceu gradualmente, e muitos questionamentos contribuíram para eu simplesmente não ver mais sentido em acreditar em uma entidade divina que intervém em nossas vidas.
Corriqueiramente em debates sobre esta temática sou bombardeada de perguntas, principalmente sobre minha vida. Questionamentos feitos por pessoas que procuram entender melhor meu posicionamento ou por pessoas que sentem sua fé sendo ofendida pelo meu ateísmo e por isso utilizam de certos argumentos para me “descredibilizar”. Dentre as questões estão meu casamento na igreja e a minha recente busca por uma paz interior o que me fez ir atrás de vários caminhos, inclusive cogitar um retorno a Igreja. Não que seja do meu interesse me justificar sobre o tema, mas através do discorrer posso esclarecer um pouco do que vem passando pela minha cabeça ultimamente.
Primeiramente quero dizer que casei na Igreja sim, e não me arrependo. Na época eu já não acreditava em muitos pressupostos que definem Deus como a intervenção divina (benção e castigo) e uma vida após a morte (alma). Entretanto, eu admitia que algumas coisas estivessem fora de nossa compreensão e decidi colocar o nome dessas “coisas” de Deus. Uma decisão que posteriormente achei sem sentido, mas sobre isso discorrerei depois. O caso é que eu ainda acreditava em Deus, um Deus totalmente meu e diferente do humanizado pelas pessoas, meio que como uma energia do universo. Além disso, apesar de não freqüentar mais a Igreja, eu sabia que tanto para a minha família como a de meu esposo isso seria um evento muito importante. Então, resolvemos fazer um casamento que agradasse a todos e todas. Foi um casamento alternativo com roupas simples, com flores do campo e ao mesmo tempo um casamento na Igreja. Pode parecer uma contradição para muitos, mas para mim é altamente compreensível o que fizemos. E que bom que fizemos, pois foram momentos maravilhosos.
Outra questão foi a minha busca, há mais ou menos um ano, antes do casamento, por uma paz interior o que me fez cogitar um retorno a Igreja, que é o caminho da maioria das pessoas. O que penso sobre isso é que todos nós precisamos de um momento de calmaria, tranqüilidade, um momento nosso. E descobri como alcançar isso. Eu como uma apaixonada pela ciência principalmente pela biologia, não há nada que me encha mais de alegria do que estar em contato com a natureza, me entretendo com as diferentes relações entre os organismos vivos e entre o espaço físico. Foi estranho eu querer voltar para a igreja um tempo atrás mesmo não conseguindo acreditar em muitas coisas. Mas o que a maioria das pessoas faz não é procurar alguma igreja, cada vez mais, para os mesmos propósitos?!
Já faz um bom tempo que tenho construído uma rede de questionamentos em minha mente sobre a existência de um ser divino que guia nossas vidas até eu descobrir que este ser não faz sentido e assim eu não acredito que ele exista.
Uma das questões primordiais que comecei a questionar é sobre o livre arbítrio. Desde a catequese eu escuto os religiosos dizendo que Deus nos deu a liberdade para tomarmos nossas decisões e que ele não interfere nelas. Comecei então a questionar a intervenção divina, imaginando uma situação hipotética, mas muito comum. Imaginei eu saindo de casa e pedindo para Deus que me abençoasse e nada de mal me acontecesse, ao mesmo tempo, na esquina se encontra um homem pronto para me assaltar. Como pedi a Deus que me “iluminasse” ele resolveu fazer com que o assaltante se distraísse e não me visse quando saí do campo de visão dele. Muito comum esta passagem, mas fica a pergunta: Deus não interferiu na escolha do assaltante de me assaltar?? Dessa reflexão, vem outra constatação: as pessoas acreditam que tudo de bom que acontece com elas é “Graças a Deus”, e eu simplesmente não consigo imaginar um ser ou uma energia interferindo na vida de todo mundo o tempo todo, como se fossemos apenas peças de algum jogo, deliberadamente, ou seja, com vontade própria. Acredito que as coisas acontecem por acaso. Mas também acredito no poder que temos sobre nosso próprio corpo. Assim, se nós acreditamos que iremos ficar bons de alguma enfermidade, acredito que nosso corpo pode ficar bom, através do efeito psicossomático.
Uma questão interessante é sobre o tempo. Às vezes acreditamos em algo apenas porque muitas pessoas acreditam há muito tempo. O que faz sentido na maioria das vezes, porque foram testadas várias vezes como, por exemplo, algum chá fazer bem pra determinado sintoma. Mas o mesmo não acontece com a crença em Deus, pois isso não tem como ser testado, então não faz sentido acreditar em Deus apenas porque muitas pessoas acreditam, há muito tempo. O que me leva a outra constatação.
Eu consigo imaginar quando nossos antepassados começaram a acreditar em um deus ou em vários (mais provável). Os hominídeos foram selecionados naturalmente, e por não se encontrarem mais abrigados nas árvores como seus antepassados, algumas características como um sistema nervoso cada vez mais complexo foram muito importantes para nosso sucesso evolutivo. Mas este cérebro complexo também trouxe alguns problemas. Estes estranhos primatas começaram a olhar ao seu redor e se questionar sobre as coisas a sua volta. Como em toda sociedade humana, sempre existiram as referências, as pessoas deviam fazer indagações a estas lideranças. Obviamente, naquela época nada se sabia sobre a matéria, os átomos e a constituição biológica, assim eles acreditavam que o sol era um deus, que a lua era outro, que a chuva era enviada por outro, enfim, tudo tinha uma explicação divina que não poderia ser questionada. A cultura religiosa teve uma importância para que se refletisse e buscasse explicações para os fatos, mas isso foi até o surgimento da Ciência. Atualmente, entendemos muito mais sobre o universo através da Ciência, de maneira mais coerente e libertária, pois o princípio do cientista é questionar o tempo todo e ele tem liberdade para isso, por esta razão a Ciência avança. Ao contrário do que acontece com as religiões que tem como característica primordial a valorização do dogmatismo. Uma entidade como Deus é tão complexa que além de não explicar nada, acaba criando um problema maior ainda. Se uma entidade criou o universo ela deve ser mais complexa do que o próprio universo. E isso como todas as explicações religiosas como a criação do mundo em sete dias, a arca de Noé, por exemplo, tiveram sua importância naquela época, mas atualmente deveriam ser vistas apenas como material histórico. E esta é outra importante questão que gostaria de abordar.
Atualmente, tenho uma postura mais radical com relação às religiões. Não discrimino ninguém, não saio pregando à gente que não tem interesse que a Ciência é uma maravilha, apesar de muitos religiosos evangelizarem constantemente, só que durante discussões da mesma forma que as pessoas expõem seus pontos de vista também não deixo de dar os meus. O que muitas vezes incomoda. Porque além de não acreditar mais em Deus, acho que o mundo ficaria muito melhor sem a religião. Por diversos motivos e não posso discorrer sobre todos eles, mas de forma geral acredito que a religião seja uma forma de manipulação das massas, uma forma alienante de fazer as pessoas não se questionarem e aceitarem “o que Deus quer”, ou então agir de forma totalmente arbitrária como nas guerras religiosas, com o eufemismo de estar fazendo isso em nome de Deus.
A temática é complexa e diversos são os estudiosos que se dedicam a ela. Um deles, um biólogo evolucionista que eu admiro muito, Richard Dawkins, escreveu um belíssimo livro, Deus um delírio, onde trata com racionalidade este tema tão polêmico com argumentações extremamente coerentes. Fica a indicação.






