sexta-feira, 5 de março de 2010

Discutir a fé!


Questionar sempre é uma prática de suma importância para nossa libertação e compreensão do universo. Entretanto, grande parte das pessoas não reflete sobre muitos aspectos da nossa cultura que nos são impostos, muitas vezes, desde o nosso nascimento. A crença em Deus e nossa conseqüente alocação em uma religião para cultuá-lo são práticas humanas milenares, mas poucas são as pessoas que refletem sobre a fé de maneira crítica.   

Não acredito mais em Deus, mas diferentemente do que muitos podem acreditar isso foi uma constatação que aconteceu gradualmente, e muitos questionamentos contribuíram para eu simplesmente não ver mais sentido em acreditar em uma entidade divina que intervém em nossas vidas.

Corriqueiramente em debates sobre esta temática sou bombardeada de perguntas, principalmente sobre minha vida. Questionamentos feitos por pessoas que procuram entender melhor meu posicionamento ou por pessoas que sentem sua fé sendo ofendida pelo meu ateísmo e por isso utilizam de certos argumentos para me “descredibilizar”. Dentre as questões estão meu casamento na igreja e a minha recente busca por uma paz interior o que me fez ir atrás de vários caminhos, inclusive cogitar um retorno a Igreja. Não que seja do meu interesse me justificar sobre o tema, mas através do discorrer posso esclarecer um pouco do que vem passando pela minha cabeça ultimamente. 

Primeiramente quero dizer que casei na Igreja sim, e não me arrependo. Na época eu já não acreditava em muitos pressupostos que definem Deus como a intervenção divina (benção e castigo) e uma vida após a morte (alma). Entretanto, eu admitia que algumas coisas estivessem fora de nossa compreensão e decidi colocar o nome dessas “coisas” de Deus. Uma decisão que posteriormente achei sem sentido, mas sobre isso discorrerei depois. O caso é que eu ainda acreditava em Deus, um Deus totalmente meu e diferente do humanizado pelas pessoas, meio que como uma energia do universo. Além disso, apesar de não freqüentar mais a Igreja, eu sabia que tanto para a minha família como a de meu esposo isso seria um evento muito importante. Então, resolvemos fazer um casamento que agradasse a todos e todas. Foi um casamento alternativo com roupas simples, com flores do campo e ao mesmo tempo um casamento na Igreja. Pode parecer uma contradição para muitos, mas para mim é altamente compreensível o que fizemos. E que bom que fizemos, pois foram momentos maravilhosos.

Outra questão foi a minha busca, há mais ou menos um ano, antes do casamento, por uma paz interior o que me fez cogitar um retorno a Igreja, que é o caminho da maioria das pessoas. O que penso sobre isso é que todos nós precisamos de um momento de calmaria, tranqüilidade, um momento nosso. E descobri como alcançar isso. Eu como uma apaixonada pela ciência principalmente pela biologia, não há nada que me encha mais de alegria do que estar em contato com a natureza, me entretendo com as diferentes relações entre os organismos vivos e entre o espaço físico. Foi estranho eu querer voltar para a igreja um tempo atrás mesmo não conseguindo acreditar em muitas coisas. Mas o que a maioria das pessoas faz não é procurar alguma igreja, cada vez mais, para os mesmos propósitos?!

Já faz um bom tempo que tenho construído uma rede de questionamentos em minha mente sobre a existência de um ser divino que guia nossas vidas até eu descobrir que este ser não faz sentido e assim eu não acredito que ele exista.

Uma das questões primordiais que comecei a questionar é sobre o livre arbítrio. Desde a catequese eu escuto os religiosos dizendo que Deus nos deu a liberdade para tomarmos nossas decisões e que ele não interfere nelas. Comecei então a questionar a intervenção divina, imaginando uma situação hipotética, mas muito comum. Imaginei eu saindo de casa e pedindo para Deus que me abençoasse e nada de mal me acontecesse, ao mesmo tempo, na esquina se encontra um homem pronto para me assaltar. Como pedi a Deus que me “iluminasse” ele resolveu fazer com que o assaltante se distraísse e não me visse quando saí do campo de visão dele. Muito comum esta passagem, mas fica a pergunta: Deus não interferiu na escolha do assaltante de me assaltar?? Dessa reflexão, vem outra constatação: as pessoas acreditam que tudo de bom que acontece com elas é “Graças a Deus”, e eu simplesmente não consigo imaginar um ser ou uma energia interferindo na vida de todo mundo o tempo todo, como se fossemos apenas peças de algum jogo, deliberadamente, ou seja, com vontade própria. Acredito que as coisas acontecem por acaso. Mas também acredito no poder que temos sobre nosso próprio corpo. Assim, se nós acreditamos que iremos ficar bons de alguma enfermidade, acredito que nosso corpo pode ficar bom, através do efeito psicossomático.

Uma questão interessante é sobre o tempo. Às vezes acreditamos em algo apenas porque muitas pessoas acreditam há muito tempo. O que faz sentido na maioria das vezes, porque foram testadas várias vezes como, por exemplo, algum chá fazer bem pra determinado sintoma. Mas o mesmo não acontece com a crença em Deus, pois isso não tem como ser testado, então não faz sentido acreditar em Deus apenas porque muitas pessoas acreditam, há muito tempo.  O que me leva a outra constatação.

Eu consigo imaginar quando nossos antepassados começaram a acreditar em um deus ou em vários (mais provável). Os hominídeos foram selecionados naturalmente, e por não se encontrarem mais abrigados nas árvores como seus antepassados, algumas características como um sistema nervoso cada vez mais complexo foram muito importantes para nosso sucesso evolutivo. Mas este cérebro complexo também trouxe alguns problemas. Estes estranhos primatas começaram a olhar ao seu redor e se questionar sobre as coisas a sua volta. Como em toda sociedade humana, sempre existiram as referências, as pessoas deviam fazer indagações a estas lideranças. Obviamente, naquela época nada se sabia sobre a matéria, os átomos e a constituição biológica, assim eles acreditavam que o sol era um deus, que a lua era outro, que a chuva era enviada por outro, enfim, tudo tinha uma explicação divina que não poderia ser questionada. A cultura religiosa teve uma importância para que se refletisse e buscasse explicações para os fatos, mas isso foi até o surgimento da Ciência. Atualmente, entendemos muito mais sobre o universo através da Ciência, de maneira mais coerente e libertária, pois o princípio do cientista é questionar o tempo todo e ele tem liberdade para isso, por esta razão a Ciência avança. Ao contrário do que acontece com as religiões que tem como característica primordial a valorização do dogmatismo. Uma entidade como Deus é tão complexa que além de não explicar nada, acaba criando um problema maior ainda. Se uma entidade criou o universo ela deve ser mais complexa do que o próprio universo. E isso como todas as explicações religiosas como a criação do mundo em sete dias, a arca de Noé, por exemplo, tiveram sua importância naquela época, mas atualmente deveriam ser vistas apenas como material histórico.  E esta é outra importante questão que gostaria de abordar.

Atualmente, tenho uma postura mais radical com relação às religiões. Não discrimino ninguém, não saio pregando à gente que não tem interesse que a Ciência é uma maravilha, apesar de muitos religiosos evangelizarem constantemente, só que durante discussões da mesma forma que as pessoas expõem seus pontos de vista também não deixo de dar os meus. O que muitas vezes incomoda. Porque além de não acreditar mais em Deus, acho que o mundo ficaria muito melhor sem a religião. Por diversos motivos e não posso discorrer sobre todos eles, mas de forma geral acredito que a religião seja uma forma de manipulação das massas, uma forma alienante de fazer as pessoas não se questionarem e aceitarem “o que Deus quer”, ou então agir de forma totalmente arbitrária como nas guerras religiosas, com o eufemismo de estar fazendo isso em nome de Deus.

A temática é complexa e diversos são os estudiosos que se dedicam a ela. Um deles, um biólogo evolucionista que eu admiro muito, Richard Dawkins, escreveu um belíssimo livro, Deus um delírio, onde trata com racionalidade este tema tão polêmico com argumentações extremamente coerentes. Fica a indicação.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Respeito a diversidade

A relação entre pessoas do mesmo sexo por motivos históricos sempre gerou muito preconceito. Por outro lado ontem (21 de dezembro de 2009) o presidente Luís Inácio Lula da Silva lançou o programa de Direitos humanos que prevê o casamento gay e novamente este tema é colocado em debate no cenário nacional. Este tema é demasiado polêmico, pois a homofobia permeia a sociedade atual, mas uma luz está brilhando, demonstrando que o respeito coletivo à diversidade parece estar mais próximo.

É possível identificar importantes fatores históricos e atuais que influenciaram e influenciam o intenso desrespeito às diferentes orientações sexuais, dentre eles temos a forte incoerência disseminada por diversos segmentos da sociedade, guiadas principalmente por doutrinas religiosas, e o forte machismo que infelizmente ainda persiste.

Existem diversos textos sagrados que apresentam a visão de uma época, onde a homossexualidade era vista como depravação. Atualmente, ela é considerada por muitos como uma doença e não são raras as demonstrações públicas de intolerância e preconceito. Diversos textos são escritos sobre as “possíveis” origens da homossexualidade, o que não acontece com a heterossexualidade. As pessoas devem entender que as diversidades fazem parte da natureza.

O machismo também se apresenta como um forte fator para a homofobia. Ainda se presencia a mentalidade de superioridade do homem com relação a mulher, assim por essa mentalidade um homem não pode ser dominado (penetrado) por outro homem, pois ser dominado é algo exclusivo das mulheres.

A forma como nos expressamos muitas vezes também está permeada com termos e declarações com sentido preconceituoso, muitas vezes até sem termos consciência disto. O homossexualismo é um termo que remete a época em que a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo era considerada perversão sexual (o sufixo ismo pela medicina refere-se à patologia). Atualmente, a forma mais adequada a se referir ao tema é homossexualidade, o sufixo “dade” significa modo de ser, comportamento.

Algumas pessoas do movimento LGBTT afirmam que o uso da expressão opção sexual, também é equivocada, afirmando que as pessoas não optam e sim apresentam orientação sexual. Essa constatação é um tanto mais polêmica que o uso do termo homossexualismo, entretanto, é coerente, pois ninguém opta ou escolhe gostar ou sentir atração por uma determinada pessoa (seja ela do sexo oposto ou não), isso simplesmente acontece.

A homofobia, infelizmente, se expressa de maneiras diversas, na forma de piadas, xingamentos, expressões e atos de violência verbal e física a homossexuais. Dados da Pesquisa "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade" (CLAM/CeseC), realizada nas Paradas do Orgulho GLBT do Rio de Janeiro (2004), São Paulo (2005) e Recife (2006), mostram o quanto a homofobia está presente na sociedade brasileira: 61,5% dos entrevistados no Rio afirmaram já terem sido agredidos, 65,7% em São Paulo também já vivenciaram algum tipo de agressão e o mesmo aconteceu com 61,4% dos entrevistados na capital pernambucana. Declararam-se já terem sido discriminados 64,8% dos entrevistados no Rio, 72,1% em São Paulo e 70,8% em Recife.

Não é possível acreditar que estar com quem se ama, seja ela mulher ou homem, seja pecado ou doença. É difícil entender que as pessoas acreditam em um Deus que condena uma coisa tão linda como a relação amorosa entre pessoas e principalmente, que não aceita que as pessoas sejam felizes com suas opções (cadê o livre arbítrio?). A felicidade e realização, completam as pessoas e as fazem felizes, isso é o que mais importa, e nada nesse mundo pode interferir nisso.

A luta contra a homofobia tem ganhado proporções incríveis, assim como a luta contra o machismo e o racismo, e assim apesar de estarem ainda muito presentes em nossa sociedade, com o tempo mais adeptos unem e o programa de Direitos humanos parece ser um importante momento para debatermos estas questões.



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*por Priscila Figueiredo

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Dancem macacos, dancem



O filme "Dancem macacos, dancem", baseado no texto de Ernest Cline, elenca as diferenças dos seres humanos com os demais animais e seres vivos do planeta, ressalta suas contradições e enfatiza o fato da humanidade não se assumir como parte integrante da natureza, enfatizando constantemente as diferenças supracitadas. A abordagem do filme é muito interessante, pois estimula a reflexão sobre a nossa postura e a crise civilizatória decorrente dela. Preconceitos entre etnias, credos e cor da pele; as guerras e a violência em geral; constituem apenas algumas facetas desta sociedade louca. É no mínimo irônico pensar que um animal, que acredita ser o centro do universo e que se orgulha da sua capacidade intelectual, não consegue perceber que está sendo determinante na degradação ambiental e para a insustentabilidade de vida na Terra. 
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*por Priscila Figueiredo

Não seja corrupto/a


A corrupção é uma prática que está infelizmente entranhada no povo brasileiro. É uma ação tão corriqueira que a maioria das pessoas nem percebe que a pratica e isto se configura como um grande desafio a ser superado.


Atualmente, quando os grandes escândalos de corrupção são trazidos pela mídia, e comum ver todos e todas abismados/ as e indignados/as com a situação. Entretanto, poucos percebem é que suas práticas cotidianas também são recheadas de falta de ética. E isso é evidenciado em todos os âmbitos da nossa sociedade, inclusive entre universitários. Diversas situações ilustram essa situação. Ir a um estabelecimento e receber o troco a mais e não falar nada, furar a fila e utilizar materiais públicos para benefício pessoal são apenas alguns exemplos das atitudes que configuram o jeitinho brasileiro ou a malandragem histórica do nosso povo. Querer sempre tirar proveito de tudo, não participar da vida política do país ou querer participar apenas para benefício pessoal configuram também este cenário.

Todos abominam a corrupção dos políticos, mas é fato que muitos brasileiros e brasileiras adoram se beneficiar em todas as situações e provavelmente se estivessem em algum cargo público também agiriam assim. Portanto, esse debate é de suma importância, pois a corrupção atrasa o país e isso implica em tornar as condições mais precárias para a população e meio ambiente. Esta discussão deve ser levada para todos os cantos do país, e as salas de aula se configuram como um dos principais espaços de transformação desta mentalidade tão mesquinha e maléfica.




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*por Priscila Figueiredo

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um pouco sobre a questão das drogas


A violência causada pelo tráfico e os excessivos gastos do estado para combatê-lo sem resultado nenhum, comprovam o fracasso da forma como lidamos com as drogas. A discussão sobre esta temática deve considerar uma importante premissa: a de que o uso de entorpecentes está presente na humanidade desde seus primórdios e a probabilidade é de que assim continuará sendo. Assumir isso é importante para entendermos que a proibição das drogas não inibe e não inibirá o uso delas. É preciso redefinir as políticas públicas.

Milhares de pessoas sofrem e morrem diariamente direta ou indiretamente devido ao crime organizado financiado pelo tráfico e pela guerra implantada pelo estado para extingui-lo. Além do dinheiro exorbitante gasto para o combate antidrogas, atualmente, os usuários de drogas são tratados como criminosos. Nesse sentido muito se avançou no país, com as recentes leis, mas estas não são suficientes para acabar com o preconceito e discriminação.  A legalização das drogas deve vir de forma gradativa e acoplada com diversas políticas públicas de conscientização da população sobre os malefícios das drogas e o tratamento de dependentes.  

Uma das primeiras ações é a legalização da maconha. Não existem motivos coerentes para a sua proibição. Na realidade o que poucos sabem é que a maconha não foi proibida porque faz mal à saúde, isso ocorreu por diversos outros motivos. Até porque nenhum mal sério a saúde foi comprovado pelo uso esporádico da erva. Dentre os fatores está o forte preconceito pelas pessoas que fumavam que no início do século XX eram predominantemente negros, árabes, mexicanos e chineses; o interesse de indústrias poderosas dos anos 20 que vendiam tecidos sintéticos e papel que queriam se livrar de um concorrente, o cânhamo; e o forte moralismo religioso da época que não aceitava a idéia de prazer sem merecimento.

A legalização da maconha seria um ponto importante para se reverter a situação atual, pois diversas pessoas deixariam de ter contato com o tráfico se pudessem comprar seu cigarrinho na esquina, ou até mesmo plantar em casa, o que é muito simples. Isso não acabaria com o tráfico, mas diminuiria o preconceito contra os usuários e seu contato com outras drogas mais fortes. Legalizar a maconha seria um grande avanço rumo a legalização completa.

A legalização das drogas representa que o estado deixará de gastar quantias exageradas no combate ao tráfico e poderá destiná-las para a educação da população e para a reabilitação de usuários que o necessitem. O estado não deve interferir na liberdade individual das pessoas, pois o estado não é dono do corpo de ninguém; assim como as pessoas não o podem interferir nas vidas das demais. Assim o papel do estado deve estar pautado em mediar para que as liberdades individuais não sejam desrespeitadas. 

O tema é complexo, mas é incontestável que a forma como lidamos com ele não tem contribuído com avanços, pelo contrário. Dessa forma, é preciso ter idéias a frente do nosso tempo, e construir alternativas coletivamente,  pois se mantivermos a mesma política antidrogas a tendência é que a guerra civil implantada se dissipe e se agrave em todos os cantos do país e do mundo.  

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* por Priscila Figueiredo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Extensão Universitária: para quê?

A Universidade pública ou particular é uma instituição repleta de contradições, sejam relacionadas com sua forma de gestão quanto pela sua política pedagógica. A Universidade não é popular, apesar de o povo ser o que paga por tudo ou pela maior parte. Não é participativa apesar de se ensinar dentro dela a importância da democracia e participação popular. Em suas entranhas se vêem preconceitos, práticas educativas tradicionais que não promovem o aprendizado, etc. Assim, as incoerências estão principalmente relacionadas com a abismo existente entre o que se leciona e se “aprende” com as práticas efetivas de todas/os as/os acadêmicas/os.
A Universidade deve pautar-se em uma forte articulação entre Ensino, Pesquisa e Extensão, mas isso não é o que observamos nas Universidades brasileiras. O ensino é na maioria das vezes, fragmentado em seus próprios conteúdos. Já a pesquisa se pauta muito no ensino, pois precisa dele para sua existência, entretanto, a recíproca não é verdadeira. Muitos podem entrar e sair de uma instituição de ensino superior sem nunca nem ter realizado sequer um projeto de pesquisa, além do TCC (que muitas vezes é comprado). A extensão se utiliza da pesquisa para seu auxílio, mas a reciprocidade novamente não é verdadeira. Existem diversas pesquisas sendo realizadas no país inteiro e que não se articulam com nenhum aspecto extensionista. Por fim, não existe nenhum vínculo da extensão com o ensino. É evidente que existem muitas exceções, felizmente, mas a realidade da maioria dos cursos superiores não escapam desse quadro exposto. E não é preciso ler nenhuma pesquisa sobre isso para se comprovar, é necessário apenas ver que a Universidade interfere pouco diretamente na realidade social das cidades onde estão inseridas. Interferem indiretamente pois profissionalizam, mas diretamente pouco se vê. Não são raros os casos de pessoas que moram em uma cidade universitária e nunca entraram dentro da instituição, muito menos sabem o que se passa lá dentro.  Por isso a falta de articulação entre ensino, pesquisa e extensão se configura como um dos maiores problemas das universidades e também um de seus maiores desafios.
O ensino é muito valorizado, a pesquisa é muito financiada, mas poucos cursos são os que se preocupam com a extensão. O descaso com a extensão é muito preocupante, mas tem um motivo: quem que vive em uma sociedade capitalista e extremamente individualista e competitiva como a nossa quer “perder” seu tempo entrando em contato com o povo, propondo e lutando por um novo mundo. Atualmente, o que vale é o dinheiro e isso não dá dinheiro; traz melhoria para a população, como saúde, uma consciência mais ecológica e igualitária. Hoje, o interessante é uma coisa: produção. Produção de um currículo cada vez melhor, com muitos trabalhos publicados e apresentados em congressos caríssimos onde só vão aquelas mesmas pessoas de sempre; e produção de conhecimento que renda dinheiro ou status científico, como uma nova vacina, por exemplo, que é muito importante mas de nada vale se não houver um trabalho com a população para promover a conscientização.     
Assim, o papel da extensão universitária tem sido amplamente discutido nos últimos anos, debate este que perpassa à própria concepção de Universidade e seu papel social. Seguindo-se a lógica dialética observa-se que assim como a sociedade, a educação mudou ao passar dos anos e, desde o surgimento das Universidades o entendimento de seu propósito, tal como suas diretrizes e ações, têm sofrido transformações. É inconcebível pensar em uma instituição que produz conhecimento e que este muitas vezes não tem uma ação direta sobre a vida das pessoas. Veja bem, os TCC são um grande exemplo, neles muitas vezes se identificam problemas se pesquisa sobre eles, se propõem mudanças (ou não) e se escreve sobre isso. Mas fica a pergunta: Quantas pessoas voltam as suas fontes de pesquisa para efetivamente mudar o que foi analisado? Com certeza muito poucos, então para que serve esta pesquisa? Para aumentar o acervo e servir de referências para próximas pesquisas irrelevantes?
A educação é um dos mais importantes instrumentos de transformação da sociedade, mas apenas aquela que é de qualidade, que não reproduz práticas e teorias. Uma educação que inspira as pessoas a repensarem o seu papel na sociedade, e sejam como diria Gandhi a mudança que queremos ver no mundo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A História das Coisas


Annie Leonard, a mulher que escreveu e que aparece no filme consegue em pouco mais de 20 minutos resumir toda a crise civilizatória que vivemos. Sim, possuímos um sistema que está em crise. Como ela mesma disse, não podemos gerir um sistema linear em um planeta finito e acredito que esta seja uma das principais mensagens do filme. Juntamente com a reflexão de que existem muitas pessoas que se unem para mudar os diferentes aspectos desse sistema.
Atualmente, as conseqüências dos impactos ambientais e sociais provocados por esta forma de organização, produção e consumo têm gerado diversos debates e proposições. Entretanto, o governo e as grandes corporações ainda insistem defendendo que é possível manter esse sistema adotando-se medidas como a diminuição das emissões de gases poluentes e preservando as áreas naturais remanescentes.
Eu não acredito nisso, por diversos motivos, muitos deles levantados no filme como a questão do sistema ser linear. E outro que a autora não cita é a questão da natalidade. Não há um controle de natalidade efetivo na maioria dos países, até porque neste sistema o número da população deve sempre aumentar para que a cada geração se tenha mais jovens que estejam aptos a produzir cada vez mais. Além disso, evita problemas enfrentados em países da Europa, por exemplo, onde a população de idosos está superando a de jovens e isso gera um rombo na previdência. Assim, as áreas naturais preservadas, uma hora ou outra, deverão ser devastadas para suportar não só o consumismo fútil de cada vez mais pessoas, mas como a própria produção para subsistência. É por isso que esta questão é crucial. Todos e todas devem discutir as questões ambientais atreladas com as questões sociais. Assim como participar da construção de um novo modelo de sociedade.  Vamos mudar e vamos exigir coletivamente que o mundo mude.





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*por Priscila Figueiredo